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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Eu lhe garanto...


O ladrão vê paredes sujas e um chão encardido. A luz do sol racionada se comprimindo por rachaduras. A cela na prisão é escura. Os dias dele, mais ainda. Ratos se escondem apressadamente em buracos nos cantos das paredes. Se pudesse, ele faria o mesmo. 

O ladrão ouve pés de soldados se arrastando. A porta da prisão se abrindo com um estrondo. E um guarda com a compaixão de uma viúva negra. 

--- Levante-se! Sua hora chegou! 

O ladrão encontra rostos desafiadores, lado a lado, ao longo de um caminho de pedras. Homens cuspindo, revoltados, mulheres virando a cara. 

Enquanto o ladrão sobe ao cimo da montanha, certo de que não voltará a descer, nunca mais. Um soldado o puxa para baixo, outro pressiona seu antebraço contra uma tora de madeira e o segura com o joelho. Ele percebe o soldado pegar a marreta e um prego grande. Medo. 

O ladrão escuta batidas. Batidas do martelo que ressoam em sua cabeça, confundindo-se com as batidas aceleradas de seu coração. Soldados romanos bufam enquanto levantam a cruz. A base faz um estampido ao ser encaixada no buraco ao solo. 

O ladrão sente dor. Dor de tirar o fôlego, de parar o coração, de enrijecer todos os seus músculos. Suas fibras pegam fogo. 

O ladrão emite grunhidos. Gemidos assustadores que pré anunciam a chegada da morte. Nada mais que a morte dele mesmo. 

O lugar? Gólgota ---- que quer dizer lugar da Caveira. Nome apropriado para sua iminente situação. 

Mas naquele monte, um rei também está sendo crucificado. A morte parece tocar nesse lugar um acorde desesperador. Nada de canções de esperanças. Nada de sonetos de vida. Apenas os acordes dissonantes da morte. 

É aqui que um outro som começar a ser emitido como uma flauta doce soando alegremente no meio de um campo de batalha. Uma nuvem de chuva encobre o sol do deserto. Uma rosa desabrocha no monte da morte. 

Jesus ora em uma cruz romana: 

---- Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo. (Lucas 23:34). 

Eis como o ladrão reage. Zombaria. “Igualmente o insultavam os ladrões que haviam sido crucificados com ele.” (Mateus 27:44). 

Ele se une aos zombadores que dizem: --- Salvou os outros, mas não é capaz de salvar a si mesmo! E é o rei de Israel! Desça agora da cruz, e creremos nele. Ele confiou em Deus. Que Deus o salve agora, se dele tem compaixão, pois disse: “Sou o Filho de Deus.” (Mateus 27:42 e 43). 

Tendo sido ferido o ladrão fere, tendo sido machucado o ladrão machuca. Mas Jesus se recusa a retaliar. O ladrão, pela primeira vez naquele dia, (pela primeira vez em tantos dias), vê bondade. Não olhares arremetedores nem palavras amaldiçoadoras, mas paciência. 

O ladrão se comove. Ele para de zombar do Cristo e tenta fazer os outros pararem também: 

--- Nós estamos sendo punidos com justiça, porque estamos recebendo o que os nossos atos merecem. --- Ele confessa ao criminoso na outra cruz. --- Mas este homem não cometeu nenhum mal. (Lucas 23:41). 

O ladrão sente que está ao lado de Alguém revestido de certa autoridade régia sobre a morte e faz um pedido: 

--- Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino. ( Lucas 23:42). 

E Jesus, cujo o trabalho envolve aceitar imigrantes ilegais, autenticando passaportes, justificando condenados com um visto do Céu, responde: 

--- Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso. (Lucas 23:43). 

E o mal dia do ladrão encontra a dádiva graciosa de um Deus misericordioso. 

O que o ladrão vê agora? 

Ele vê um filho confiar sua mãe aos cuidados de um amigo e honrar seu amigo com os cuidados de sua mãe. (João 19:26 e 27). 

Ele vê o Deus que escreveu um livro sobre Graça. 

Ele vê o outro ladrão não vendo nada. 

O que ele ouve? 

Ele ouve o que Moisés ouviu quando era um fugitivo no deserto do Sinai; 

O que Elias ouviu quando estava deprimido no penhasco; 

O que Davi ouviu depois de seu adultério com Bate-Seba; 

Ele ouve o que um Pedro inconstante ouviu após o galo cantar; 

Os discípulos atirados pela tempestade ouviram após o vento parar; 

A mulher que traía o marido ouviu depois que os homens foram embora; 

A samaritana que se casou várias vezes ouviu antes de os discípulos chegarem; 

O paraplégico ouviu quando seus amigos o passaram pela abertura no telhado; 

O cego ouviu quando Jesus o encontrou na rua. 

Ele ouve a língua oficial de Cristo: GRAÇA IMERECIDA, INESPERADA GRAÇA. 

Jesus lhe respondeu: Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso. (Lucas 23:43). 

Paraíso --- O céu intermediário --- a casa dos justos até o retorno de Cristo. A árvore da vida está lá. Os santos estão lá. Deus está lá. E agora o ladrão que começou o seu dia em uma prisão romana fétida, fria e escura, estará lá. 

Com Jesus não há entrada pelos fundos, não há chegada clandestina. O ladrão passa pelos portões pisando o tapete vermelho de Jesus. Hoje, imediatamente. Sem se purificar no purgatório. Sem reabilitações em clinicas espirituais de outro plano. Nosso Lar ou coisas do tipo. 

A graça vem como a luz do sol e ilumina a alma sombria do ladrão. O monte da execução se transforma no monte da transfiguração para ele e talvez você precise do mesmo. 

Os erros de ontem fazem o papel do esquadrão romano da morte. Eles o acompanham ao calvário da vergonha. Os rostos do passado estão pelo caminho. Vozes berram seus crimes enquanto você passa. Logo você é crucificado na cruz de seus erros. Erros idiotas! 

O que você vê? Morte. 

O que você sente? Vergonha. 

O que você ouve? 

Ah, essa é a pergunta. O que você ouve, amigo? 

Conseguiria ouvir a voz libertadora de Jesus em meio aos seus acusadores? Você seria capaz de escutar a melodia da Graça tocando em nossos des-graçados ouvidos (almas). 

“Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!” 

Ele garante: Hoje estarás comigo no paraíso. 

Hoje, este é o dia. No meio desse dia angustiante, Jesus realiza um milagre: Enquanto crucificam o seu passado, Ele te liberta para um futuro de vida, cobrindo com misericórdia seus dias de vergonha. Paraíso prometido, hoje, para mim e para você. 

Tudo que Ele espera é que eu e você reconheçamos esse som. O som da Graça. 

As palavras do ladrão bastam para sua oração inicial: Nós estamos sendo punidos com justiça porque estamos recebendo o que os nossos atos merecem. Mas este Homem, não cometeu nenhum mal... 

Nós estamos errados. Ele está certo. 

Nós mentimos. Ele é a verdade. 

Nós pecamos. Ele é o Cordeiro que tira o pecado do mundo. 

Nós precisamos de Graça. Somente Ele pode nos dar. 

Então peça ao Senhor: “Lembra-te de mim quando entrares no teu Reino.” 

Ele não tardará em lhe responder: 

“Hoje você estará comigo no paraíso.” 

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